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Ser mãe em um mundo hostil

O Dia das Mães é uma data na qual todas as pessoas parecem agradecer pela paciência e devoção materna. Homenagens são promovidas pelas organizações e o ato de cuidar parece ganhar um significado sublime. Na verdade, ele nada tem de sublime, ele não passa de uma obrigação em um contexto no qual poucos apoios são oferecidos.

Mães dão conta de tudo. Dão conta das crianças, da casa, do trabalho. São homenageadas por isso, mas também são demitidas após o retorno da licença maternidade, porque todo empregador sabe que é impossível dar conta de tudo. É impossível participar de uma reunião até tarde quando se precisa buscar a criança na escola ou estar presente 100% das vezes quando ela fica doente.

E quando buscam novos empregos, são questionadas sobre os cuidados com os filhos. E a maternidade, nos demais meses do ano, torna-se uma carga, por mais sublime que seja.

Muitas mães acabam se dedicando ao empreendedorismo. É a forma que encontram de se inserir no mercado quando as oportunidades rareiam. Mas esse empreendedorismo nem sempre traz condições dignas de trabalho, que somadas à responsabilidade do trabalho doméstico só reforça a vulnerabilidade materna. Muitas vezes estabelecem vínculos com empregatícios escondidos com clientes fixos, que as supervisionam, que cobram resultados, mas que não garantem direitos. Ou então se desdobram para criar produtos que sejam vistos como relevantes para o público e desenvolver estratégias de marketing e vendas quando nunca tiveram interesse nisso. Ou vivem no corre do bico, de ter que fazer o possível para pagar as contas.

E ao entrar nesse ciclo, acabam também cada vez mais desprotegidas pelo Estado. Sem um vínculo formal de trabalho as contribuições ao INSS ficam menos regulares, e os direitos que o INSS dá acesso vão ficando cada vez mais limitados. O trabalho doméstico não é visto como trabalho, e só pode contar para fins de proteção social em casos muito específicos e limitados. Os efeitos só serão percebidos no longo prazo, no momento da aposentadoria, ou quando houver a necessidade de acessar alguma outra proteção.

Isso não é uma critica ao empreendedorismo, muito menos ao empreendedorismo materno. Empreendedorismo é necessário para gerar inovação e movimentar a economia. Mas nem todo mundo tem perfil pra isso, nem todo mundo quer correr esse risco, nem todo mundo tem condições para isso. Quem empreende no mundo cada vez mais desprotegido tem ganhado uma aura heróica, aquela pessoa que faz e acontece com poucos recursos.

Curiosamente ou não, o empreendedorismo moderno tem as mesmas características de uma mãe: resiliência, paciência e dedicação sobrehumana. A pergunta que nem sempre é feita é como proteger as pessoas que não têm vínculos de trabalho formal, seja por opção, seja por falta de oportunidades, nos momentos de maior vulnerabilidade?

A vida pessoal passa a tomar ares de vida empresarial. Passa a ser necessário um planejamento de vida, assim como é necessário um plano de negócios. Porque se algo falhar, não há mais quem possa dar suporte. As mães são empurradas para esse mundo, no qual são reverenciadas por cuidar das filhas e filhos, mas poucas pessoas estão dispostas a olhar por elas. Estão solitárias, tentando fazer reserva de emergência porque a próxima emergência é sempre iminente. Fazem isso enquanto realizam o trabalho não remunerado de cuidar das próximas gerações.

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