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Preto e dinheiro são rivais?

Quando eu e meu irmão morávamos juntos durante nossa infância e adolescência, costumávamos ter pequenas brigas. Brigávamos porque éramos irmãos e porque tínhamos um gosto musical diferente. Precisávamos sempre negociar o que íamos escutar. Principalmente quando éramos crianças, que tínhamos apenas fitas cassete, discos de vinil e CDs aleatórios dos nossos pais. Só alguns anos depois que pudemos ter nossos próprios CDs.


Com o passar do tempo, o nosso acesso a novas tecnologias também cresceu e deixamos de lado os CDs e fitas cassete para curtimos um som com pen drives e com mídias sociais, como o YouTube por exemplo. Na mesma medida que crescíamos, o nosso acesso à informação também crescia, então tínhamos muitos recursos a nossa mão, inclusive musicais.


Enquanto meu irmão gostava de escutar rap, eu tinha outras preferências, como rock brasileiro. Naquela época, mesmo não gostando do gênero que ele adorava, refletia bastante sobre as letras. Algumas eu achava ofensivas, outras embalavam a nossa organização da casa e isso tornava a nossa companhia muito mais divertida. No entanto, uma coisa que eu só fui perceber quando adulta foi a ideia trazida por Mano Brown dos Racionais MC’s sobre preto e dinheiro serem rivais.


Eu venho de uma família onde poucas pessoas tiveram uma ascensão financeira. E a forma como essas poucas pessoas lidam com o dinheiro é bem peculiar. Claro que não conheço a vida financeira a fundo de cada uma delas, mas pude acompanhar os altos e baixos de suas vidas financeiras mesmo tendo um poder aquisitivo alto. Assim, pude perceber o quanto dinheiro pode significar para cada um de nós.


Nem todas as pessoas lidam com o dinheiro de forma prudente. Isso quer dizer que independentemente de quanto temos, os nossos gastos podem ultrapassar aquele valor. Mas o que fazer quando uma população inteira parece fadada à escassez? Quando olho para o histórico de pessoas negras, que é o que sou e o grupo de pessoas com quem mais tenho contato, vejo uma dificuldade entre o ser, ter e usufruir de um material como o dinheiro com liberdade e consciência.


As nossas finanças são influenciadas por muitas coisas, inclusive pela forma como somos socializadas. Temos contato com o nosso grupo familiar, com o grupo religioso do qual fazemos parte, com a escola e assim por diante. Todos esses ambientes e grupos nos compõem enquanto sujeitos. Enquanto sujeito pobre e negra parece que as histórias de escassez são muitas, enquanto as histórias de prosperidade não possuem continuidade ou, se existe continuidade, se apresenta acompanhada de culpa. As emoções que sentimos quando falamos de nossas finanças podem ser inúmeras, mas a sensação de culpa por poder ter acesso a determinados espaços e oportunidades parece acompanhar muitas histórias, inclusive a minha.


Eu sou uma jovem que tem conseguido ter acesso a muitas oportunidades - e reconheço que isso vem dos estímulos que tive de meus pais em relação à educação, principalmente. Esse campo na minha vida sempre foi importante, tão importante que eu cultivava o sonho de realizar um intercâmbio para aprimorar os estudos.


Quando compartilhava esse interesse com meu irmão ainda criança, ele ria de mim e eu me sentia envergonhada por querer algo tão fora da minha realidade. Ele ria não por desdém, mas porque éramos diferentes e, enquanto ele era extremamente prático, eu era sonhadora.


Deixei de comentar isso com ele, mas continuei cultivando o sonho em alguma medida. Crescemos, tivemos acesso à faculdade. Quando cheguei nesse lugar, compartilhei o sonho de fazer um intercâmbio com um amigo e professor e, para minha surpresa, ele não riu, apenas escutou o que eu tinha para dizer. Certo tempo depois, ele me encaminhou um e-mail falando sobre sonhos. Nele dizia que "sonho que sonha só é só sonho, sonho que se sonha junta vira realidade".


Mal sabia ele que as fitas e os discos do Raul Seixas embalaram minha infância, e era daí que eu conhecia esse trecho de uma música que parecia tão dramática, mas que trouxe um significado para um desejo tão íntimo. Por mais que eu sonhasse com esse desejo, não acreditava que poderia se tornar realidade.


O sonho do intercâmbio aconteceu. Mas, entre as minhas preocupações, uma era como conseguir o dinheiro para poder comer e dormir em meio a experiência de estudar em outro país. Logo eu tive a resposta e a ajuda que precisava. A solução encontrada foi compartilhar esse desejo com outras pessoas, pedindo a colaboração delas.


Nem todo mundo ficou confortável com esse meu pedido. Meu pai, por exemplo, chegou a dizer que se sentia envergonhado por ver a filha pedindo esmola. Eu sabia que ele não aprovava essa escolha por vários motivos, inclusive preocupação, mas eu também sabia da minha realidade e entendia que o fato de não conseguir ter acesso a esse tipo de oportunidade não era um caso isolado.


Disse para ele que se pedir ajuda para poder realizar os meus estudos era como um pedido de esmola, então era o que eu faria. Pois, não tem nada de mais em pedir ajuda quando se precisa. O meu pai, assim como tantas outras pessoas, acredita na ascensão de acordo com os seus próprios méritos e que se expor da forma como fiz não é uma coisa boa.


Não sei se ele continua pensando assim, mas a sensação foi a de que uma amarra estava se arrebentando entre nós ao responder o que ele tinha me dito. Além da colaboração de muitas pessoas para o intercâmbio, muitas rifas foram vendidas e pessoas que eu sabia que tinham algo a oferecer foram convidadas para ofertar um de seus talentos em troca de me ajudar a conseguir a quantia necessária para a viagem.


Com isso, aprendi que os recursos estão disponíveis, mas eles não são acessíveis porque nem todas as pessoas têm acesso às oportunidades. Eu tive o privilégio de ter uma família que se preocupou com o meu ensino, e o acesso a muitas coisas. Por isso, eu fui e venho sendo apresentada a muitas oportunidades e consegui aproveitar muitas delas. Mas, em meio a tudo isso, me senti culpada por ter acesso a uma experiência que muitas pessoas ao meu redor não têm.


Durante o intercâmbio, vi um vídeo da Monique Evelle que conseguiu sintetizar como eu me sentia naquela experiência. Nesse vídeo, ela diz que o racismo deu tão certo que a gente sente culpa quando ganha dinheiro. Eu não ganhei dinheiro no sentido profissional, mas ter acesso a uma realidade completamente distinta e ver valor em muitas coisas me trouxe a sensação de culpa. Essa culpa parecia uma nuvem nebulosa pairando em cima da minha cabeça.


Refletindo sobre o assunto, pensei sobre questões estruturais que nos atravessam e sobre como o nosso atual sistema de produção incorpora o que lhe convém. Convém ao sistema capitalista obter lucro e não importa quem ou o que consuma desde que dê lucro. O lucro é um motor propulsor para que essa lógica capitalista continue funcionando. O fato de eu ter acesso a muitas coisas não é apenas uma simples coincidência.


Esse sistema bebe de uma fonte onde vários corpos eram escravizados e diminuídos por não fazerem parte de uma etnia que tivesse a pele branca. Para que preto e dinheiro deixem de ser rivais, foi e continua sendo necessário muita luta individual e coletiva para assumirmos um papel de relevância que atravesse esse sistema.


A nossa possibilidade de consumo acontece porque temos acesso à educação, saúde, justiça. Temos capacidade de compra e acesso a tecnologias que nos fazem ser parte do motor propulsor desse sistema. Todo esse acesso ainda é restrito, pois em muitas situações ele é ofertado de forma desqualificada, além de haver muitas pessoas que ainda não conseguem se quer consumir itens básicos para a sua subsistência.


Preto e dinheiro não são rivais, mas nós fomos socializados para acreditarmos nisso. Se desvencilhar de sentimentos que nos impedem de usufruir o resultado de nosso trabalho ou estudo é uma postura desafiadora porque é ir contra as ideias de nossos pais, irmãos e tantos outros antepassados que foram impedidos ou se recusaram de sonhar porque a realidade imposta foi avassaladora e meritocrática.


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