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O que ser mãe me ensina sobre nova economia?

Ontem foi aniversário de três anos do meu filho. É um dia de festa, de celebrar, mas me bateu uma melancolia inexplicável. Não sei se é simplesmente cansaço ou se tem outra coisa. São três anos que não durmo uma noite inteira, são três anos que eu não tenho controle das minhas necessidades mais básicas. Comer com uma criança mamando, contar história com entusiasmo quando eu só quero ficar quieta, evitar andar a pé para não ter que carregar mais de 10 quilos no colo (1/5 do meu peso) para ir para os cantos, tudo isso virou rotina e não tenho a menor perspectiva de quando vão deixar de fazer parte da minha vida.


Esses dias em um clube do livro alguém estava falando sobre o produtivismo da nossa era. Sobre como era exaustivo ter que estar disponível a todos 24 horas por dia, sete dias por semana. Quando chegou minha vez de falar, contextualizei que na minha casa as tarefas domésticas e de cuidados com o nosso filho são compartilhados e argumentei que ter que cuidar do meu filho me evitava cair nesse looping da disponibilidade infinita que esses tempos têm exigido cada vez mais de nós. Quando estou com meu filho, dificilmente consigo checar o whats app, e se conseguir, certamente não conseguirei elaborar uma resposta complexa. Nesse dia a minha conclusão era de que o ritmo lento e antiprodutivista da economia do cuidado nos levava para outro lugar, e poderia ser, inclusive, uma saída para esses tempos sombrios.


Mas cá estou eu reclamando da exaustão materna, querendo de volta minha produtividade, minhas oitos horas de trabalho diárias para poder cumprir minha lista infinita de afazeres com alguma qualidade. Tento fazer o almoço enquanto minha chefe me pede uma lista de dados, e embora eu goste bastante de cozinhar, deixo queimar o almoço e só percebo quando o cheiro de carvão já estava insuportável.


Nesse momento de transição, em que ainda tenho que responder às demandas do meu trabalho e preciso manter a constância para colocar de pé a É Circular, tenho sentido muito cansaço. Mas mãe não cansa, mãe engole o choro e conta história e coloca o filho para dormir. A maternidade é o lugar em que eu realmente pude sentir o que é cansaço, o que é viver um dia de cada vez, sem saber se a criança vai dormir cedo para dar uma trégua ou se vai acordar de madrugada querendo brincar.


Embora na minha casa as atividades domésticas e de cuidado sejam bastante compartilhadas, eu sei que em geral são as mulheres que realizam essas tarefas. É um trabalho não produtivo, e por experiência própria, sei o que isso significa. A gente chega no fim do dia exausta e sente que não fez nada. Mas quem precisa de mais produção? Tudo que leio sobre o que podemos fazer para evitar que as mudanças climáticas acabem com a espécie humana falam de diminuir a produção e o consumo. Mostram como a Terra não aguenta que se consumam seus recursos infinitamente. Quer dizer, a Terra não aguenta fornecer as mesmas condições favoráveis para nós, humanos se continuarmos consumindo tudo aquilo que favorece a nossa vida.


E fico aqui falando de regenerar o planeta quando na verdade não existe nada mais regenerativo do que cuidar de uma criança doente. Ficar dias sem dormir até ela demonstrar a saúde costumeira. E isso sim é cansativo. Regenerar o planeta seria, para mim, cuidar desse planeta doente, mesmo que eu saiba que a Terra é muito saudável e sabe se cuidar muito bem sozinha. Só que para isso, pode ser que a Terra mude tanto, que não consigamos sobreviver. Doente está o planeta no qual conseguimos viver.


Quando meu filho nasceu eu duvidava diariamente se eu conseguiria dar conta de cuidar dele. Era um suplício colocá-lo para dormir, ele golfava o tempo inteiro, o que só me fazia duvidar da saúde dele, e quando começou a comer, não comia praticamente nada (e ainda come bem pouquinho). Mas ele foi crescendo e se desenvolvendo, é saudável e hoje pula, conversa, e sabe o que quer e o que não quer. Ainda questiono minha maternidade, mas não duvido mais. Pode ser que ele não seja a criança prodígio que vai aparecer em um vídeo na internet, mas tenho certeza que ele tem as qualidades necessárias para ser tudo aquilo que ele quiser ser.


Sempre quis ter um projeto meu, ser algo como empreendedora social ou ativista. Mas nunca sabia o que poderia ser esse projeto, e nem como atuar. Sempre fui tímida e não gosto muito de reuniões. Mas misteriosamente, após a maternidade as possibilidades foram se aventando, e fui criando coragem para arriscar. Não sei se foi coincidência, mas as vezes penso que ter tido força para nutrir uma criança me dá a certeza de que consigo nutrir um projeto.


A partir dessas divagações só consigo concluir que é a economia do cuidado que nos permitirá cuidar do planeta e evitar o colapso da espécie humana. Ninguém vive na pele a luta pela sobrevivência da espécie do que uma mãe com uma criança recém-nascida que depende em tudo dela.


Mas essa conclusão não é fácil, porque a economia do cuidado é exaustiva e tem uma lógica totalmente diferente do que tudo que valorizamos. Ela é devagar, as horas passam lentamente quando você está cuidando; e você só percebe o avanço depois de um tempão, quando olha para traz e percebe que está tudo diferente. Ela é totalmente improdutiva, você não tem um produto no final do dia (ou do mês, ou do ano) para apresentar para o seu chefe ou seu cliente. Ela exige disponibilidade, você não consegue responder demandas diversas quando está com uma criança pedindo atenção. E ela é a única com poder de nutrir e regenerar, que é o que precisamos fazer nesse contexto em que cada vez mais há pessoas com fome e os biomas estão cada vez mais devastados.


A economia do cuidado é majoritariamente exercida por mulheres, e acredito que serão elas as com maior potencial de se adaptar a esse trabalho improdutivo que o planeta precisa. Mas essa responsabilidade não deve ser atribuída apenas as mulheres, porque chega de colocar nas costas delas o dever de cuidar de tudo e de todos! Os homens (e as mulheres) também precisam aprender a cuidar, a desacelerar e a deixar de exigir produtividade (que é o que gera lucro e retorno financeiro). E todos precisamos aprender a cuidar um do outro, porque sem o cuidado mútuo, a solidariedade e a cooperação, só o que resta é o cansaço e não é a economia da exaustão que queremos construir!

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