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O que não te explicaram sobre ‘consumo consciente’

Todos os dias somos bombardeados com propagandas e anúncios de promoções e descontos. Para o senso comum, viver com dinheiro para gastar é sinal de sucesso e plenitude. É fato que consumir é uma necessidade de cada um de nós. Contudo, a necessidade incessante de consumir imediatamente e cada vez mais, vem nos levando a um caminho sem volta.


O Dia de Sobrecarga da Terra neste ano foi dia 29 de julho; mais cedo do que em 2020, que foi dia 22 de agosto. Essa data é marcada pelo momento em que a humanidade consumiu todos os recursos naturais que o planeta é capaz de renovar durante um ano. Isso significa que precisaríamos de mais de uma Terra para sustentar o comportamento da população mundial atual.


A solução para reverter esse quadro vai além de pequenas ações diárias, como preferir por sacolas sustentáveis para o mercado, andar mais a pé ou de bicicleta ou diminuir o consumo de energia elétrica. Essas ações individuais não deixam de ser aquilo que as nossas avós já chamavam de ‘história para boi dormir’.



Se formos colocar na ponta do lápis, claro que essas atitudes reduzem, em certas quantidades, as emissões de carbono do planeta. Mas ainda assim, não é suficiente. E vou te explicar o porquê.


Pensar na ideia de ‘consumo consciente’ no sistema capitalista é por si só um paradoxo; uma figura de linguagem que relaciona numa mesma expressão conceitos contrários. Não existe consumo consciente nesse sistema, o que inviabiliza essas escolhas individuais de serem consideradas movimentos sociais de resistência política.



Mesmo que toda a população mude seus hábitos individuais, não será o suficiente para evitar o colapso ambiental. Apenas no Brasil, a maior responsabilidade pelo consumo de água e energia estão concentradas nos setores da indústria e agricultura, de acordo com os dados da EPE (Empresa de Pesquisa Energética) e da ANA (Agência Nacional de Águas). As grandes áreas desmatadas para pasto ou monoculturas de commodities usam o solo e a água do planeta numa velocidade maior do que seria possível recuperá-los.


Além disso, aspectos do atual paradigma de crescimento econômico inviabilizam que as pessoas consumam num ritmo que seja viável para o planeta. Como por exemplo, um grande absurdo que se chama ‘obsolescência programada’, na qual os produtos ficam obsoletos após um determinado tempo de uso. Se isso não for alterado, que diferença fará mudarmos nossos hábitos se os produtos não são feitos para serem duráveis?


Quando estudo esse tema é impossível não pensar na ativista ambiental Vandana Shiva. Em seu artigo publicado no livro ‘Pluriverso: dicionário do pós-desenvolvimento’ pela editora Elefante, ela explica um pouco sobre a destruição da vida na natureza e na sociedade dentro da lógica do crescimento econômico:




“Tanto a ecologia como a economia derivam da palavra grega oikos, que significa “casa”, e ambas as palavras pressupõem uma forma de gestão doméstica. Quando a economia trabalha contra a ciência da ecologia, o resultado é a má administração da Terra, nosso lar. As crises climática, hídrica, alimentar ou da biodiversidade são diferentes sintomas da má gestão da Terra e de seus recursos."

Diante disso, me pergunto como podemos fazer uma melhor gestão dos recursos da nossa casa?


Segundo a economista Kate Raworth, precisamos abandonar a ideia de 'crescimento infinito' para a continuidade da espécie humana num planeta que tem recursos finitos, ou seja, um dia irão se esgotar. As fórmulas vazias de redução de consumo como ‘apague a luz’ ou ‘tome banhos mais curtos’ colocam grande responsabilidade em ações simplistas. É necessário dar #umpassoalém e acreditar no poder das pessoas comuns, em conjunto com o Estado e o mercado.


No âmbito do mercado, os investimentos e negócios de impacto buscam direcionar essas questões tentando desenvolver e impulsionar iniciativas que buscam propor soluções para esses problemas. Negócios calcados na agricultura sustentável e regenerativa, indústrias que buscam reciclar materiais ou até mesmo desenvolver produtos que saiam da lógica da obsolescência programada são iniciativas que podem contribuir na reversão desse quadro.


Contudo, é muita presunção afirmar que os investimentos e negócios de impacto vão resolver todas essas questões. Enquanto a pauta socioambiental não é prioridade para o Estado, o que podemos fazer é apostar nas organizações que têm poder para mudar a rota da economia, atuando nas soluções para esses problemas e fazendo o dinheiro circular para além de onde sempre circulou.


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