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Estamos atentos ao que dizem as esquinas da COP26?

Estamos na reta final da COP26 , que tem como estrela principal o debate sobre a descarbonização do planeta por meio da redução de gases de efeito estufa. Mercado de carbono, (decepcionantes) acordos para o abandono do uso de combustíveis fósseis, promessas de desmatamento zero desacompanhados de planos de ação consistentes e pedaladas climáticas de Bolsonaro é tudo que tem chegado na minha caixa de e-mail nas últimas semanas. Como uma novata no universo dos investimentos e negócios de impacto, estive tentando acompanhar as principais notícias dessa novela diariamente, até me deparar com o tweet que viralizou da ativista ambiental Greta Thunberg, que diz que o evento nem é uma "conferência climática" e, sim, um "festival de greenwashing". Greenwashing é uma expressão em inglês criada para descrever a ação de organizações, empresas ou governos que se vendem como sustentáveis para ganhar dinheiro. No caso, fazem acordos, não cumprem e ainda usam a imagem de "amigos do meio ambiente".


Esse tweet me despertou para fazer o que a Mariana, da Florin empreendedorismo, chamou no episódio 5 do podcast Mudança de Rota de "teste do pescoço" - fiquei curiosa pra olhar em volta e ver quais eram os acontecimentos nas esquinas da COP26. Vi que, durante um protesto organizado por jovens do movimento "Sextas-Feiras para o Futuro" no dia 5 de novembro em Glasgow, a Coalizão Negra por Direitos e outras 250 entidades lançaram uma carta chamada “Para controle do aquecimento do planeta - desmatamento zero: titular as terras quilombolas é desmatamento zero”.


O documento é profundo e crítico e denuncia a crise climática e também humanitária que estamos vivendo com um governo que tem violado leis e códigos ambientais e cujos resultados têm impactado sobretudo os povos e comunidades tradicionais. Na Amazônia, a floresta, os povos indígenas e as comunidades quilombolas têm sofrido os impactos do desmatamento e das atividades criminosas da mineração legal e ilegal. As ações criminosas somam-se ainda às queimadas legais e ilegais em escalas expressivas nas regiões Norte, Centro-Oeste e Nordeste do Brasil.


Com problemas como a falta de segurança ambiental nos territórios urbanos e rurais de maioria populacional negra, impactada pela expropriação, poluição hídrica, atmosférica, pelos eventos climáticos extremos, pela morada em áreas de risco, pelo despejo de resíduos, pelo não acesso aos serviços de saneamento básico, impactados pelas enchentes, deslizamentos, doenças de veiculação hídrica, entre outros que a carta relata, me pergunto o que estamos esperando do nosso governo na COP26. O que esperamos de dirigentes que não estão dispostos a falar sobre o racismo ambiental existente em seu próprio território e com sua própria população, mas vão fazer negociações e acordos internacionais sem mencionar uma palavra da realidade desesperadora que lhes aguardam em casa.


O que resta é voltarmos os nossos olhares também para as ruas e esquinas e ouvir o que essas pessoas têm a nos dizer. No momento, elas nos despertam para compreender que a corrida global pelo carbono zero, a aprovação do artigo 6ª do Acordo de Paris e o investimento de U$ 100 bilhões anuais nos países em desenvolvimento não fazem sentido se o enfrentamento ao racismo ambiental e as desigualdades não forem priorizados com urgência. Precisamos ficar atentos para que o Sul Global não seja novamente colonizado em um movimento de "nova industrialização verde" por parte dos países ricos.



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