top of page

A nova economia precisa ser uma economia de cuidados

A economia atual só ocorre porque as pessoas recebem cuidados umas das outras. Em geral, recebem cuidados de uma mulher. De suas mães e babás quando são crianças, de suas professoras quando estão na escola, de enfermeiras quando estão doentes, de suas filhas e cuidadoras quando estão idosas. Os homens também participam da economia de cuidado, mas em menor proporção do que as mulheres.

Essa economia permite que o que chamamos de economia ocorra. Você só sai para trabalhar porque alguém te criou e educou para que você chegasse à idade de trabalhar com saúde. Você só consegue se dedicar ao trabalho o tempo que precisa porque alguém limpou sua casa e preparou a sua comida.

Às vezes essa economia é remunerada, mas mesmo quando é, é desvalorizada. Enfermeiras recebem menos do que médicas, professoras primárias recebem menos do que os de Ensino Médio e por aí vai. Quanto mais uma profissão se restringe ao cuidar, menos ela é valorizada. E mais ela é ocupada por mulheres, principalmente mulheres negras e pobres.

Para que as mulheres possam se desenvolver em sua plenitude, precisamos repensar a economia do cuidado. Ela precisa deixar de ser vista como gratuita ou de menor valor. E para isso, os homens, o mercado e o Estado precisam assumir a sua parte.

O Estado precisa se responsabilizar pelos cuidados ao fornecer boas creches e escolas, inclusive em tempo integral, e assistência aos idosos. Quando se fala de cuidados, o que mais vem à mente é o cuidado com crianças, mas em tempos de redução da natalidade e aumento da longevidade, a economia do cuidado também precisa prever esse tipo de atenção.

Além disso, para que os homens possam participar mais da economia do cuidado, algo muito claro que pode ser feito é aumentar a licença paternidade. E isso precisa ser aprovado em lei. Com uma licença paternidade minimamente coerente com os cuidados que um bebê recém nascido e uma mulher recém parida exigem é possível que os cuidados não precisem ser delegados às avós, babás e todo tipo de arranjo que é feito para dar conta de tamanha vulnerabilidade.

Essa ação, além de incluir os homens nas dinâmicas de cuidados, diminui a desvantagem que as mulheres em idade fértil estão sujeitas. Se homens e mulheres precisarem se afastar do trabalho para ter que lidar com os cuidados, existem menos incentivos para as mulheres serem preteridas no mercado de trabalho.

As empresas podem se responsabilizar pelos cuidados ao fornecer creches para seus funcionários. É orientação da Organização Mundial da Saúde que as mulheres amamentem seus filhos exclusivamente até os seis meses de idade, mas muitas têm apenas quatro meses de licença maternidade, quando tem. Uma creche no local de trabalho permitiria que as mulheres pudessem conciliar seu trabalho com o cuidado com o bebê. Mesmo aquelas que escolhem não amamentar, ou até mesmo homens com filhos se beneficiariam desse tipo de política. Na verdade, esse tipo de ação dá a possibilidade, inclusive, do homem ser o responsável por estar à disposição da criança durante seu tempo de trabalho.

Já os homens precisam compartilhar tarefas, e não apenas ajudar em casa. Precisam cozinhar, limpar, cuidar dos filhos e dos pais, planejar e antecipar o que precisa ser feito e não apenas agir conforme é solicitado pelas mulheres. Mas isso já é um beabá meio óbvio, que espero não precisar ficar repetindo porque acredito no potencial dos homens de serem bons cuidadores. Nesse caso sim, é só querer e fazer.

Paula Fiuza, fundadora da É Circular

Comments


bottom of page