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A mudança que queremos é um jogo de pega-varetas subvertido!

Você se lembra de ter jogado pega varetas? A regra básica para jogar pega-varetas é pegar uma vareta sem que as outras se mexam. O jogo acontece com uma quantidade específica de varetas e existe um código com cores para saber qual o valor de cada peça de acordo com a sua cor. Tem um conjunto de varetas na cor azul, verde, vermelha, amarela e preta. Existe a que vale menos e a que vale mais, mas o segredo é pegar uma quantidade de varetas que equivale a metade do valor mais um para poder ganhar. Para isso é preciso ter sorte no jogo, saber o mínimo da matemática e ter uma estratégia que funcione.


É um jogo competitivo onde sempre há um ganhador e um perdedor. O jogo pega varetas não é muito diferente do sistema de produção em que nos encontramos. Há quem ganha muito e há quem ganha pouco. Todos jogam, mas nem todos possuem condições dignas de terem o mínimo de matemática e uma estratégia que funcione. Se a pessoa acreditar no invisível o que lhe sobra é a sorte. Sabemos que a sorte é insuficiente para nossa sobrevivência e o que é preciso são condições para que todo e qualquer indivíduo tenha direitos de forma equânime. Não iguais porque a regra do jogo capitalista muda conforme a sua realidade e proporcionar direitos equânimes significa reconhecer necessidades e não aplicar as mesmas regras para todos.


Passam-se os anos e temos um dia exclusivo para consciência negra. Parece muito para um dia porque são tantas as conquistas e tantos os desafios que um dia apenas não nos contempla. Não nos contempla porque, como talvez você já esteja cansado de saber, somos a população que mais morre. Durante a pandemia isso não foi diferente. Pessoas negras e pobres foram as mais acometidas pela doença. Também somos as que mais ocupam trabalhos subalternos, como serviços gerais e outros. Não há nada de errado em exercer esse trabalho, afinal ele é mais do que necessário. O problema está na perspectiva dada a ele e de como o imaginário social relega esse tipo de serviço a pessoas marginalizadas, incluindo pessoas negras.


Quem me dera se meu pai recebesse o suficiente para os serviços que ele já prestou ao longo da vida desde os seus nove anos de idade ou se minha mãe ainda criança não precisasse ter se preocupado em dar conta de todos os trabalhos domésticos de uma casa com 8 pessoas e ainda estudar sem abandonar a escola. Parte da família, os pais e os irmãos mais velhos, precisavam sair para trabalhar e os irmãos mais novos precisavam de cuidado. É preciso cuidado, mas cuidado para não continuarmos reproduzindo o que deveria ter sido abolido junto a escravidão: o imaginário da pessoa negra como subalterna, como aquela que merece menos por conta de sua pele ou a que aguenta todo tipo de dor pelo simples fato de ser negra.


Sabe o que é preciso? O funcionamento adequado de políticas públicas que garantam o ensino da cultura afro-brasileira nas escolas de forma efetiva e responsiva a um histórico de opressão que continua ainda hoje. Continua quando, por exemplo, um senhor é surpreendido por uma outra senhora que comete injúria racial proferindo a frase “negada do inferno” ao vê-lo em uma calçada. É duro escrever essa frase, mas é preciso escancarar o racismo, a senzala que ainda habita em nós. É preciso escancarar que não cabemos em um único e exclusivo dia. Não cabemos porque os pesares são enormes, como os que foram citados. Só que os ganhos e as rupturas a um sistema que não se preocupa em cuidar de quem os mantém também é preciso ser escancarado.


Escancaro o trabalho de músicos e musicistas que fazem do espaço musical um espaço de [r]existência para cultura negra. Desde Alcione cantando os sambas icônicos vindos da época de meus avós até Lineker, falando a partir de sua realidade como uma mulher negra e trans em um período que chamo de meu. Somos muitos e muitas na pesquisa e literatura com Milton Santos e Lélia Gonzalez. Somos vários cantando no bar da esquina da cidade do interior e também nas instituições de ensino estudando, lecionando por meio de Ações Afirmativas que devem continuar enquanto não ocuparmos os espaços sem ser preciso insistir para estar nele.


É preciso subverter o sistema, mudar as regras do jogo e rasgar o calendário porque um dia apenas não nos cabe. Não quero ganhar, muito menos perder, quero condições equânimes para nossa existência. Quero regras justas onde eu não conte apenas com a sorte, mas que eu tenha condições de saber matemática e de desenvolver uma estratégia tanto para jogar pega-varetas quanto para romper com essa lógica desigual.








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