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É possível tornar o mercado financeiro colaborativo?

Sempre fui daquelas com certa aversão ao mercado financeiro. Imaginava um ambiente no qual a especulação predomina e as pessoas estão sempre conseguindo lucrar mais e mais, mesmo que para isso seja necessário inventar arranjos que fragilizam a economia real, aquela praticada por pessoas comuns, que compram, vendem, empreendem e tentam ganhar a vida de forma digna.

Minha opinião sobre o mercado financeiro não mudou muito desde que comecei a me embrenhar por esses campos. Mas uma coisa mudou. Percebi que se eu quiser fazer com que negócios e projetos que tornem a economia mais justa e ecológica tenham alguma chance de dar certo é necessário fontes de financiamento. Como não acredito que o Estado será capaz de fazer isso sozinho, só consigo pensar que precisamos envolver o mercado financeiro.

Percebi que essa busca por financiar negócios promissores é essencial. Nem tudo que se tem por aí é especulação e operações que não se sustentam na economia real. Mas mesmo isso é feito com base em uma lógica de competição e do lucro. Estão sempre procurando o próximo unicórnio, aquele negócio que vai compensar as perdas de todos os outros que não deram certo.

A questão é que estamos em um patamar de emergência climática e crise humanitária no qual não é possível investir apenas em unicórnios, é necessário investir também em negócios pequenos, que transformam as comunidades nos quais estão inseridos, que precisam desenvolver tecnologias ainda não existentes, mobilizar e capacitar agentes, entre outras atividades que não geram lucro de início.

Quando se trata de resolução de problemas complexos como os que precisamos enfrentar, acredito mais no poder da cooperação do que da competição. Os negócios precisam ser eficientes, eficazes e resolver os problemas para os quais se propõem. Porém, um negócio só não vai dar conta dos desafios que vivenciamos. Na verdade, nem acho que seja o melhor, afinal, empresas grandes demais tornam os mercados menos inclusivos e diversos, diminuem as possibilidades de escolha e criam monopólios.

A minha experiência no serviço público me mostra como a cooperação traz mais ganhos de escala do que a concorrência. Por meio da cooperação é possível capilarizar ganhos e promover transformações reais nas vidas das pessoas. A cooperação não é alcançada com altruísmo, e sim com regulação, coordenação e incentivos, principalmente. É orientado pela regulação da divisão de atribuições entre Governo Federal, estados e municípios que os formuladores de políticas definem quem pode fazer o quê. É por meio de arranjos de coordenação que diferentes agentes trabalham de forma alinhada, mesmo que muitas vezes estejam em lados opostos da disputa política. E é por meio de incentivos que mesmo quem tem menos disposição para cooperar se vêem com motivação de contribuir, visto que isso muitas vezes envolve o recebimento de recursos extras.

Nos últimos anos, houve um avanço significativo no desenvolvimento de instrumentos regulatórios para promover o financiamento da economia real que pode apoiar na resolução dos problemas que enfrentamos. Fintechs, sociedade de empréstimo entre pessoas, sociedade de crédito direto, blended finance são só alguns exemplos do que se tornou viável nos últimos anos. Há também espaços de coordenação, como o Laboratório de Inovação Financeira da CVM e a Enimpacto, que têm avançado na troca de experiência entre os atores e na identificação de gargalos que precisam ser enfrentados. Resta agora desenvolver um arcabouço de incentivos para que o mercado financeiro possa ser mais um ator na construção da economia mais justa e ecológica.

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