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É mesmo necessário que negócios de impacto sejam escaláveis?

Negócios de impacto são aqueles que buscam apresentar alguma solução para um problema socioambiental ao mesmo tempo em que consegue gerar lucro. São negócios comuns que buscam crescer, aumentar o faturamento e até mesmo distribuir riqueza para seus sócios, sendo que o que os diferencia dos negócios comuns é o seu propósito, que visa contribuir para a solução de algum problema social ou ambiental. Entre os problemas que muitos negócios de impacto buscam apresentar soluções tem a ver com a falta de acesso à habitação em condições digna para famílias de baixa renda, a falta de acesso ao crédito da população de baixa renda, os desgastes de solo e poluição causada pela monocultura convencional, a degradação ambiental, a falta de energia limpa disponível para as famílias, entre outros.


Até aí, muito bom. A meu ver, esse propósito por si só já tornaria um negócio de impacto uma prioridade para direcionamento de recursos e fomento. Quem não gostaria de ver uma economia fortalecida e desenvolvendo soluções para problemas sociais e ambientais? Mas o propósito nem sempre é suficiente para justificar o investimento em negócios sociais, eles precisam, além de tudo, ser escaláveis.


E o que é isso? Falando de maneira bem simplificada, ser escalável é poder crescer, ampliar o desenvolvimento das suas atividades utilizando os mesmos recursos. Em geral, isso é feito por meio da tecnologia, que faz com que o produto possa ser oferecido para um número cada vez maior de pessoas, sem necessariamente ter que contratar mais pessoas para atender o aumento da demanda. São exemplos de ferramentas que aumentam a escala dos negócios aplicativos de intermediação de relações, mercados virtuais, utilização de big data e inteligência artificial para apresentar soluções customizadas a cada perfil de cliente, entre outros.


Um exemplo clássico de negócio escalável é o Uber, que intermedeia a relação entre motorista e passageiros. Você não precisa ter mais funcionários do Uber para aumentar a oferta de motoristas e atender a demanda de mais passageiros. O próprio modelo de negócio viabiliza o crescimento da empresa e de seus lucros sem muitos custos adicionais. Mas às custas de quem acontece esse crescimento? Como o caso do Uber é clássico, é fácil responder essa pergunta: às custas dos motoristas, que são cada vez mais precarizados, trabalhando por muitas horas para receber cada vez menos, sem nenhum direito trabalhista. E quem ganha são os acionistas do uber, que vão muito bem, obrigada!


Isso não quer dizer que todos os modelos de negócio escaláveis têm o potencial de explorar algum de seus parceiros. Mas será que exigir escala não seria uma forma de favorecer modelos de negócio que tendem para esse tipo de relação? Não seria mais coerente com a ambição de promover soluções para problemas sociais e ambientais buscar desenvolver negócios que, em conjunto e a partir de relações justas, possam construir uma economia mais equilibrada? Por que a pretensão de achar negócios que, sozinhos, resolvam todos os problemas da humanidade de uma só vez (gerando outros)?


Um dia desses recebi a notícia que um negócio de impacto que viabiliza reformas em domicílios em situação precária de famílias de baixa renda iria mudar seu modelo de negócio para aumentar a sua escala. Um negócio que colocava a mão na massa iria deixar de fazer as reformas e virar uma plataforma que conecta várias pequenas empresas de reformas. Não sei como isso vai ocorrer nem quais são os benefícios dessa mudança, mas a primeira sensação que tive foi de perda. Perda porque ao invés de pensar em investir em mais empresas com o mesmo propósito e construir um nicho de mercado voltado para resolver esse problema, a decisão tomada foi investir em uma só empresa, para que ela possa organizar, de forma vertical, a oferta desse serviço.


Se estamos falando em nova economia, não seria mais sensato pensar em construir redes de negócios horizontais, em que eles compartilham experiências e desafios? Se o problema social e ambiental é tão premente, por que somente um negócio precisa ter o monopólio da sua solução? Porque, nesse caso, é isso que parece estar acontecendo, a construção de um monopólio com a pretensão de resolver todo o problema de precariedade de habitações de famílias de baixa renda.


E por que existe essa exigência? Porque boa parte dos investimentos em negócios de impacto funcionam a partir de participação acionária (Venture Capital e Private Equity). E para esse tipo de investimento ser vantajoso, a empresa precisa ter lucros altos, crescer, aumentar o faturamento e ser comprada para dar liquidez ao investimento. E isso, em geral, é feito por meio do aumento da escala do negócio. Um negócio que dava certo em uma cidade passa a dar certo no país inteiro, sem precisar aumentar muito os custos para isso.


A questão é que dar certo em uma cidade só já pode ser bom o suficiente. Se em cada cidade tiver um ou mais negócios que resolvam alguns dos seus problemas sociais e ambientais, não é necessário ter um negócio só com a pretensão de resolver todos os problemas do país só para ser vantajoso para os seus acionistas.


Ah, então por que a gente não muda o modelo de investimento? Em parte, porque o investimento por meio de participação acionária pode ser mais vantajoso para quem está começando. Para quem não tem nada, pegar um empréstimo pode ser bem arriscado, já que não há muitas garantias a oferecer. Nesse sentido, é necessário pensar em desenvolvimento de capitais de risco e paciente que não estejam atrelados à expectativa de escala.


Essa é uma tarefa para agências de fomento, bancos de desenvolvimento, fundações, mas também para quem desenvolve produtos financeiros disponíveis aos investidores. Essa crise econômica mostrou que muitos dos produtos oferecidos pelas instituições financeiras convencionais podem ter prejuízo ou um retorno baixo e as pessoas, embora não gostem, se conformam. É a vida, investimento envolve risco! Isso não quer dizer ser irresponsável com o dinheiro das pessoas, mas muita gente ainda coloca dinheiro na poupança, apenas com o objetivo de preservar seu capital, sem pretensões de enriquecer. Então, pensar em soluções que, embora não tragam retornos financeiros tão substanciais, possam promover mais negócios de impacto, que em conjunto, contribuam para a solução de problemas sociais e ambientais sem a pretensão de escala é algo possível, e necessário.

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